domingo, 2 de julho de 2017

HQ - A PATACA FATAL


Quando vi a chamada dessa história em quadrinhos anunciando a volta do Almanaque Disney para este mês de Junho que passou, após um hiato de 12 anos e dando continuidade a numeração, confesso que minha mente remeteu à obra fantástica "Piada Mortal", do Batman e Coringa - aliás, recomendadíssima para quem procura variar um pouco nos universo dos quadrinhos e se dispor a conhecer um material do Batman.

Ela, de fato, faz alusão a uma história, entretanto, não tem nada a ver com o morcegão sinistro, mas, sim, com uma obra antiga do tão prestigiado Mestre Disney Carl Barks. Um "remake" de "O Trenzinho da Alegria": grande clássico que faz parte da nata de produção das obras com a família pato. Este Almanaque Disney acertou em cheio em retomar sua publicação escolhendo justo essa trama como pontapé inicial. Não poderia ser melhor. 


"A Pataca Final" contém a essência do argumento de "O Trenzinho da Alegria", que é o fato dos patos darem-se conta de que o mundo não gira somente ao redor deles, que a desigualdade social existe e assola a todos, ceifando as pessoas de darem prosseguimento aos objetivos e metas de suas vidas. 

Sabendo que o quaquilionário Patinhas poderia interferir positivamente na vida de algumas daquelas pessoas, eles se decepcionam com o pato velho chiliquento que se recusa a fazer alguma coisa. Donald faz pressão até o tio finalmente ceder e concordar em colaborar com alguma coisa. Acontece que sua caixa-forte está abarrotada e, ao acrescentar uma única moedinha, toda sua fortuna cai em uma espécie de buraco que se abriu porque o solo não suportou mais o excesso de peso de tanto dinheiro. Aquela simples e inofensiva moedinha foi como a gota d´água que restava para transbordar o balde, se é que me entendem.

Após algumas pesquisas de profissionais,  foi possível descobrir o que houve e onde está o dinheiro. O problema é recuperar a grana. Uma tarefa aparentemente impossível e perigosa, correndo o risco de todo aquele império se perder definitivamente.

Tudo isso você vê na obra clássica e neste novo trabalho. O que mudou, no entanto, faz os menos observadores terem a sensação de que se trata de algo completamente novo. Se não houvesse a informação, eles nem fariam a ligação de uma obra à obra, haja vista que as histórias do Patinhas sempre giram em torno de seu dinheiro, sua ambição desmedida e os riscos de perdê-lo. O que mais contribuiu para mascarar essa situação de "remake" foi o fato de tirarem a argumentação de uma trama de Natal e a transformarem em mais uma aventura do cotidiano, sem uma época específica. Para reforçar ainda mais esse distanciamento, o cenário gelado de neve e frio deu lugar ao  frescor de paisagens urbanas em meio a várias árvores e plantas, com uma floresta cheia de muito verde e detalhamento de cenários. 

O rombo da caixa-forte de Patinhas, no original, foi ocasionado por ele próprio e sua mania de acumular cada bendita moedinha. Ainda assim, ele culpou Donald pelo acontecido e os dois saíram no braço. Afinal, o muquirana estava desesperado, precisava extravasar a intensidade do que sentia e ninguém melhor do que o próprio sobrinho (que antes já tinha lhe aporrinhado as ideias para contribuir à causa dos mais pobres) para ser o seu saco de pancadas ideal. Embora Donald nem estivesse por perto no momento, na cabeça de Patinhas a culpa era dele e pronto! 

Na trama atual, o rombo foi ocasionado por Donald. Patinhas estava irredutível em ajudar. Donald, irritadiço e impulsivo, começou a botar pressão no tio e só conseguiu piorar ainda mais a teimosia dele, fazendo com que deixasse bem claro que não daria um centavo sequer para  raios de causa nenhuma. Então, Donald, tomado por um impulso de ódio, retira uma moeda de 1 pataca que trazia consigo e a esfrega na cara do tio. A moeda cai dentro do cofre da caixa-forte e a tragédia está consumada.

Esses detalhes parecem inofensivos e você deve estar pensando que reconheceria sim o "remake". Convido-os a adquirirem essa edição do Almanaque Disney para constatarem com seus próprios olhos as mudanças. Eu duvido que vocês assimilem tão facilmente uma obra à outra. Os informativos trazem uma entrevista com os envolvidos nessa produção. Eles dão a entender que esse distanciamento foi providencial. Talvez a intenção, penso eu, foi apenas fazer uma nova produção usando um roteiro antigo. Vai saber quantas e quantas vezes essa equipe fez isso e nem percebemos...

Só queria esclarecer que isto não é uma crítica ao que encontrei nesta revista. É apenas uma observação por meio de comparações entre o clássico e o atual. Eu gostei da história. Confesso que nem me lembrava da clássica, uma vez que Carl Barks fez outras tramas envolvendo neve, gelo e o Patinhas sendo afortunado e esnobe ao redor de pessoas à espera de sua boa ação. Então, "O Trenzinho da Alegria", para mim, é uma HQ como muitas outras de mesmo gênero que foram criadas naquela época. Não tenho motivo algum para considerá-la mais evidente do que "Natal nas Montanhas", por exemplo. 



Este novo Almanaque Disney ainda trouxe uma HQ muito bacana com o indiozinho Havita. Eu a li por último e, dados os seus trabalhos anteriores, vi até uma evolução. Lobinho e Lobão também dão as caras, embora a graça das histórias deles, na minha opinião, eram os três porquinhos. Aqui, eles aparecem apenas no fim da trama e de uma forma que passam desapercebidos, como se fosse até um crime ou um favor estarem inserindo eles dentro da HQ. Deve ter algo a ver com licenciamentos, uma questão que vem se tornando uma pedra no sapato das criações hoje em dia. 

É sempre bom lembrar que os personagens mais esquecidos da Disney prometem voltar agora. Eu só espero que essa volta seja bacana, com histórias interessantes e não se restringindo apenas a Lobão, Havita e Banzé, porque o elenco Disney é enorme. Temos muitos personagens de contos de fadas que tiveram HQs ótimas. Um bom exemplo é a Branca de Neve e os sete anões. Uma boa HQ com ela é "O Capitão Fracasso", onde ela fica cega e o Donald  aparece (no papel de um nobre barão sem noção que vive sua vida meio "sem lenço nem documento") envolvendo-se em um feito heroico. O gato estranho de Alice nos País das Maravilhas e o raposão de Pinóquio também participam. Os sete anões dão um tempero todo especial e promovem o teor humorístico da trama toda, que tem cerca de 59 páginas e foi publicada (no Brasil) no volume 1 da coleção "Clássicos da Literatura Disney".


O Almanaque Disney n° 374 já está sendo divulgado e estará nas bancas, segundo a editora, a partir de 20 de Julho. Segue a capa:


Abraços a todos.

Fabiano Caldeira.


4 comentários:

  1. Eita Fabiano, que post bacana! Talvez por você ser um artista (escritor e desenhista) tenha um olhar mais apurado sobre as HQs. Eu to no meio daqueles que não reconheceriam o remake. Até pelo volume de leitura. Quando era criança lia e relia o mesmo gibi varias vezes. Hoje isso não acontece. Leio e muito dificilmente vou reler tão cedo e, com isso, as HQs não ficam marcadas na memória tanto quanto antes. Ainda lembro mais de HQs da minha infância do que praticamente todas que li ano passado, por exemplo. O que é original não se desoriginaliza, mas a homenagem em forma de remake bem feito é válida.

    Vamos esperar os proximos Almanaque Disney. Já liberaram a capa dos dois próximos números. Se tiver post aqui sobre eles mais pra frente vou gostar de saber sua opinião sobre eles.

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    1. Olá, Sérgio! Tudo Bem? Tudo indica que farei RESENHAS sobre os dois próximos "Almanaque Disney". O que acontece é que não costumo adquiri tão logo sai as bancas. Farei um esforço para isso.
      Quanto a5 identificação, resolvi fazer a resenha específica da HQ justamente porque eu não a reconheci. Achei ótima. O estilo dos desenhos esta5 mais agressivo, porém com riqueza de ângulos e movimentos que me são admiráveis.

      Obrigado pela presença e o comentário.

      Um abraço.

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  2. Em questão de emocionar, "A Pataca Fatal" não colou. Quando o pessoal vai entender que jamais devem tentar mexer ou copiar o que Barks fez?

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    1. Olá! Obrigado pela visita e por participar aqui com seu comentário.
      Ficou bastante diferente, né?
      Um abraço.

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Peço educação e gentileza na troca de ideias. Obrigado!