sábado, 7 de janeiro de 2017

CORPO QUE FALA - MINICONTO

Hoje é o dia do leitor, alguém disse por aí. Então resolvi compartilhar um dos vários materiais que tenho escrito. Sei que o foco aqui são os quadrinhos, mas tenho gostado muito de escrever ficção. Então, deixo um pouco do que faço. Um forte abraço!


CORPO QUE FALA

Autor: Fabiano Caldeira




Para ela nada mais importava. Queria acabar logo com aquela história,  enterrar de vez aqueles momentos. 

A pá deu sua última fincada na terra úmida pela chuva fina que ia e vinha. Já  era o bastante. Um saco preto foi colocado naquele buraco. Ao cair, rasgou-se, expondo a cabeça sem vida.

Antes de cobrir o que jogara, ela se abaixou e, com uma das mãos,  a cabeça do defunto ela levantou.  

— Verme desgraçado! Olhe só  o que você  fez comigo! Me transformou nisto que sou! 

Para seu espanto, o defunto então falou:

— Você é o que é.  Não fiz você se tornar isso. Esse monstro sempre esteve dentro de você. 

— Cale essa boca! — ela disse, repetidas vezes, sem paciência. Assim, com total ausência de escrúpulos, a terra ela começou a jogar, revestindo o saco preto cujo corpo lá dentro implorava piedade. 

Ele estava morto há horas. E morto não falava. Ela sabia que aquele truque não passava de um golpe da própria mente que a julgava culpada.

A chuva fina tornou a cair. Ela compactou bastante a terra e esparramou a vegetação de outrora, para dificultar a fácil  visualização de que aquele trecho fora, por algum motivo, modificado. Logo aquelas plantas tornariam a fincar raízes, dificultando ainda mais a curiosidade àquela localização. 

"Finalmente, uma noite de  paz!", ela concluiu, surpresa consigo mesma, indo embora sem ao menos olhar para trás. 

Em casa, ao providenciar o banho em sua suíte de luxo, olhou todo o seu corpo. Lembrou-se das juras de amor, do quanto ele antes fora encantador e de como as coisas mudaram tão  de repente e tudo tornou-se dor. 

Cicatrizes, hematomas e até uma boa extensão  de pele queimada que ia do seio esquerdo e descia costela abaixo, parando na cintura, testificavam o inevitável. Após  o casamento, sua vida havia mudado. E não bastavam as brigas e todo o desgaste emocional fixos em sua memória, ele tinha era que deixar aquelas marcas para registrar tudo o que podia ser omitido com um sorriso.

Ela chorou. Cobriu o rosto com as mãos e chorou. A água  enchia a banheira. Logo ela se livraria completamente daquela sujeira. Uma vida nova lhe aguardava, cheia de marcas do passado, o que talvez fosse algo providenciado  para que não cometesse  o mesmo erro de entregar-se facilmente a quem lhe prometera amor verdadeiro.




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