sábado, 20 de fevereiro de 2016

[Desabafo] Umberto Eco e a era da imposição de conceitos a uma arte


A passagem de Umberto Eco foi concluída neste planeta ontem, dia 19 de Fevereiro de 2016. 

Conhecido principalmente por ser escritor do livro O NOME DA ROSA, um romance que reúne mistério e um olhar crítico à Igreja Católica, a lista de publicações em seu histórico é bem grande, muitas delas sendo de cunho filosófico e linguístico, as suas áreas de atuação. 

Fala-se que ele gostava da escrita, de histórias e publicações diversas, não importava se estivessem em forma de ficção, documentários ou até sob o estilo de histórias em quadrinhos. Aliás, comenta-se que os quadrinhos de super-heróis, dentre outros mais clássicos, conseguiram sua admiração. 

Cometerei o atrevimento de afirmar aqui, acredito que ele se foi em uma época a qual já lhe incomodava todo esse consumo midiático perpetuado pela internet. Se, por um lado, a web proporciona a visibilidade instantânea e acessível a todos, por outro, esse acesso não é produtivo, não passa de manifestações de pessoas que nem sempre possuem uma visão construtiva das coisas, e ficam, talvez, sem darem-se conta, agindo feito cães bravos, apenas fazendo barulho em tudo quanto é canto à espera de notoriedade. 

Exemplificando mais claramente a questão, outro dia deparei-me com algumas pessoas criticando pela enésima vez o Paulo Coelho. Percebi um consenso focado na conquista de seu lugar na Academia Brasileira de Letras e não, exatamente, expressões de gostos pessoais sobre o porquê de elas não gostarem de seus livros. As pessoas simplesmente (nem se sabe ao certo o motivo) nutrem um desdém crescente pelo cara porque ele conseguiu uma cadeira na academia. E esse mal acaba sendo propagado e ganhando aliados, ou seja, mais pessoas que simplesmente gostariam de destituir Paulo Coelho pelo simples prazer de não vê-lo ocupando sua posição. E o mais embaraçoso que constatei, esses comentários vieram de pessoas que também se intitulam amantes da escrita, das histórias, das criações artísticas, indivíduos que buscam um lugar ao sol para suas publicações e sabem o quanto é difícil viver de alguma forma de artes nesta nação.

Meu cérebro dói quando vejo uma força tão grande em cima de alguém - e não é pelo fato das pessoas não apreciarem tais obras concebidas, mas, sim, porque a esse pessoal incomoda o sucesso, a visibilidade em torno desse alguém, ainda que seja um alguém que já escreveu vários livros e disputou o mercado da mesma maneira, usando as mesmas ferramentas acessíveis a tantos outros. 

Ontem mesmo, vi uma tirinha de HQ que ilustrava a situação de um jovem cantor. Ele tinha talento e vontade, mas não condições de investimento. Sendo assim, a tirinha aponta que a saída para investir no começo dessa empreitada foi começar a cantar sertanejo universitário em barzinhos. A palavra prostituição foi usada porque, certamente, o gênero musical não deve ser o preferido do autor. É claro que teve sempre alguém querendo fazer barulho em cima, alegando que o cara é um preconceituoso em associar o sertanejo universitário com a prostituição. 

Desde então, li toda aquela chuva de palavras maldosas a fim de que o desenhista se retratasse, e achei um absurdo aquele manifesto apenas porque o cara transmitiu um pouco de si em sua arte. E aí, vemos o quanto acaba se tornando prejudicial essa era de arte politicamente correta, visando agradar a todo mundo, a todas as pessoas que tem uma diversidade ampla de valores. 

Quando aparece alguém que resolve dar o verdadeiro sentido à sua obra, as pessoas não entendem, elas simplesmente não sabem sequer o conceito do que é um trabalho artístico, querem sentir-se agradadas e apoiadas. O autor deve ser uma TV programada apenas para lhe dizer "sim, sim", sendo que essa visão está muito distante da cultura que, por sua vez, deve prezar por manifestações espontâneas de seus criadores através de uma atividade. Essas atividades são usadas para transmitir suas impressões, opiniões, visões singulares a respeito das coisas da vida. 

E aí, fica uma impressão de que temos que apoiar, adorar e glorificar funkeiros, rapeiros e atores completamente inexpressivos, cujos brilhos são regados a uma única nota que faz "plim-plim". Os mesmos que nos incitam a isto, não se veem no dever de compreender nosso mundo e nossas escolhas, porém, não hesitam em ditar que temos uma obrigação moral de apoiarmos as escolhas deles. 

Isso me soa um tanto quanto confuso e unilateral. E o que é unilateral não é livre. O país que caminha para a massificação desse tipo de comportamento não sabe muito bem o que é uma democracia, o que representa escolhas, opções, direitos e deveres;  está mais focado em ditar conceitos, regras e gostos, manipulando seu próprio rebanho para que essa imposição seja aceita. 

A melhor ditadura que existe é aquela que consegue o aval de sua própria população. Melhor a quem? Talvez àqueles que dormem e acordam em frente dentro das redes sociais, sempre mostrando ter uma opinião formada sobre tudo.




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