segunda-feira, 19 de outubro de 2015

[HQ] As comemorações atuais da MSP


Sou leitor de quadrinhos desde que me dou por gente. Quem me segue há um bom tempo sabe que tive um grande hiato nessas leituras no período aproximado de 1994 a 2007 que foi quando voltei a ler, aos poucos, um gibi qui e outro ali. Entretanto, mesmo não lendo gibi por cerca desses aproximados 13 anos, lia livros, revistas, jornais, então a leitura sempre foi constante. 

Sem enrolar muito, só queria deixar aqui o que penso sobre o foco das comemorações em torno da Mauricio de Sousa Produções. Vem aqui quem quer -, não fico esfregando minhas palavras na cara das pessoas e nem fazendo elas engolirem à força o que digo, portanto, ainda pensando que moro em um país livre de opinião, vou dizer:

Admiro muito os gibis envolvendo os personagens da turma da Mônica. Lembro que era meu estímulo para estudar, pois, ao passar de ano, meu pai cumpria o compromisso de ter que me presentear com cerca de 10 revistas de uma vez. Claro que, ao longo do ano, a minha mãe sempre dava um jeitinho de me comprar alguma edição fininha do Cascão ou Chico Bento. Mas não eram muitas essas vezes, pois vivíamos em tempos onde a economia estava assustadora e meu pai tinha muitos gastos, pois ajudava a família da mãe dele e também a da sogra. Aprendi a desenhar rabiscando esses gibis, primeiro com carbono no verso da folha, depois fui fazendo no esquemão "olha e faz do lado". 

Hoje eu sou um adulto e minha retomada ao colecionismo dos gibis se dá em meio a momentos em que ficava horas e horas em hospitais e  depois tapeava momentos de agonia em casa, ou seja, já não havia mais aquele velho sentimento inocente. Ao longo do tempo, tenho adquirido alumas revistas antigas as quais tinha me livrado e vejo que muitas vezes minhas lembranças de admiração eram mais sentimentais do que por qualquer outro fator real. 

Dizem que as HQs de hoje são ruins. Que as obras envolvendo a turma da Mônica antigamente eram bem melhores. Eu concordo em certos aspectos. No sentido de que não havia a preocupação de se pensar em fazer um enredo voltado para as criancinhas e muito menos de que tal aventura fosse influenciar algum ser de mente fraca por aí. Muito pelo contrário: havia sim o intuito de influenciar as pessoas a pensarem e refletirem sobre tal conteúdo, principalmente quando a trama envolvia o Horácio, Astronauta e até mesmo os personagens mais básicos como Mônica, Cebolinha, Cascão. Hoje em dia, na época em que estamos, fica meio que subentendido de que é proibido fazer roteiros que estimulem o jovem a pensar. E a Mauricio de Sousa Produções, com medo enorme de perder todo seu complexo investimento empresarial, supostamente se curva diante dessa característica contemporânea. Mas, ainda assim, é possível encontrar boas HQs, um roteiro de qualidade, desenhos bons, uma arte muito bem aceita - mesmo sabendo que este último quesito poderia evoluir um pouco mais. 

O que  ainda precisa melhorar é a forma esnobe de como tratam as pessoas que demonstram ter um pouco de controle no que consomem. São aqueles que compram os gibis quando dá - não fazem assinaturas, não ficam se portando nas redes sociais com um discurso de fã em cada postagem de alguma novidade que é lançada, não ficam cedendo aos lançamentos e à comunicação impulsiva que diz: "você precisa ter mais este produto". Esse tipo de cliente, embora acompanhe as publicações ao longo de muitos anos e influencia gerações, não interessa muito a esse pessoal hoje em dia. E isso chega até mesmo à cara de pau de fazerem historinhas incentivando o consumismo inteligente. E digo "cara de pau" porque gastar cerca de cinquenta reais todo mês com gibis não é algo que seja realmente necessário, não é mesmo? Sequer chega a ser qualificado de importante. Pode sim, ser interessante, um mimo, um luxo, mas não é algo necessário, não é algo importante. 

E aí eu vejo esse fervor de comemorações sobre os 80 anos de quem fundou toda essa empresa. Parece que tudo está em festa e que todos são bem vindos, mas a real das coisas não é bem assim. A verdade é que fica muito mais fácil trabalhar as emoções das pessoas quando a empresa procura simplesmente não se manifestar a respeito de certas ações. O próprio Mauricio já chegou a se expressar várias vezes por meio do Twitter algumas palavras que mostravam claramente seu descontentamento quando via um placa qualquer com um desenho mal feito de um personagem seu, uma fantasia mal feita da Magali vagando por aí, um scan de alguma publicação do tempo da editora Abril. E esse fato, ainda hoje, não mudou. Há toda uma postura que eles resolveram providenciar e ela diz respeito exatamente ao que escrevi mais acima, neste parágrafo, sobre o poder do silêncio, ou seja, não se manifestar sobre certas coisas. Mas volta e meia alguns "funcionários" deixam escapar um comportamento, digamos, estranho nas redes sociais, como se eles mesmos fossem a própria estrela-mor dessa festa toda - a maior das maiores. E não fazem isso por amor à causa, mas porque querem defender o próprio comodismo da forma como andam desempenhando suas funções na casa.

A festa existe sim, mas, tal como acontece sempre e assim deve ser, todo evento importante é organizado apenas para determinados convidados. Há luz, câmera, ação para todos! Afinal, foi a plateia quem colocou os rumos dessa trajetória como ela é. É preciso lembrar-se das pessoas em geral, do quanto o olhar delas, a assistência a qual prestam, se faz necessária para a rentabilidade dos produtos. Mas não se engane. Expectadores não são convidados. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Os brioches que eventualmente podem sair de dentro do salão e irem parar nas mãos do povão possuem característica distintas. A degustação não é nem de longe a mesma.

Evidente que, diante de todo meu histórico de leitura dos quadrinhos da MSP, desejo vida longa aos gibis e muitos outros produtos comercializados. Desejo avanços cada vez mais significantes a ponto de termos o gosto de irmos ao cinema e encontrarmos animações de excelente qualidade, por exemplo. De encontrar títulos em bancas que mostrem HQs com um bom cenário e aventuras que não sejam tão restritas de imaginação. Afinal, um mundo de histórias em quadrinhos infantis não pode servir de veículo educacional para ninguém a ponto de se ver obrigado a restringir criatividade. Estamos em um momento, neste cenário social nacional, em que necessário se faz agregar tudo quanto é tipo de fantasia, pois acredito que a tendência certa esteja em somar. O diabo, o bandido, o bailinho, o trabalho infantil, a preguiça de estudar... todos esses itens e muitos outros possuem seu lado bom ao serem inseridos. É preciso liberdade na arte e estímulo ao pensamento livre e racional.

Fabiano Caldeira




2 comentários:

  1. " Mas, ainda assim, é possível encontrar boas HQs, um roteiro de qualidade, desenhos bons, uma arte muito bem aceita - mesmo sabendo que este último quesito poderia evoluir um pouco mais. "

    Até pode encontrar hj um outra história boa, mas desenhos, sinceramente, não acho q estão bons. Pior q agora até capas estão seguindo o estilo copiar/colar.

    Nas comemorações ao aniversário do Mauricio, claro q não deixa de ser homenagem, mas tem muitos caça-níqueis aí. Além dos livros lançados na Bienal, vem aí agora o "Memórias do Maurício" , mostrando a trajetória do Mauricio desenhada por diversos artistas fora da MSP. Deve ser caríssimo. E vai ter tbm um Almanaque Temático reunindo histórias q o Mauricio apareceu nos gibis. Este mais em conta, seguindo o memso preço dos outros Temáticos.

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    1. "Além dos livros lançados na Bienal, vem aí agora o "Memórias do Maurício" , mostrando a trajetória do Mauricio desenhada por diversos artistas fora da MSP. Deve ser caríssimo."


      O cara escolhe quem e como deve ser a historinha de sua vida. Uma homenagem completamente comprada e editada por ele mesmo. Bizarro.

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